A frase circula em toda reunião de e-commerce: “frete grátis acima de X aumenta o ticket médio”. A parte empírica é verdadeira — o ticket sobe mesmo, e é fácil de ver no relatório. O que quase nunca é medido é a outra metade da equação: quanto custa comprar esse aumento. E quando a conta é aberta, o valor mínimo que a maioria das operações escolhe transfere margem sem comprar quase nada.
O problema não está na política. Está em onde o número é colocado, e no fato de que o efeito mais caro dela é justamente o que não aparece em nenhum painel: o pedido que já passava do mínimo e que agora não paga mais frete.
Como o mínimo costuma ser definido
A regra informal mais comum é olhar o ticket médio e colocar o mínimo um pouco acima dele. Ticket de R$ 120, mínimo de R$ 150. A lógica parece razoável: puxa quem está perto, sem exigir um salto absurdo.
O erro está em usar a média para uma decisão que depende da distribuição. O ticket médio não diz quantos pedidos já estão acima do corte — e são esses que determinam o custo da política, porque eles mudam de comportamento zero e passam a receber frete de graça. Uma operação com ticket médio de R$ 120 pode ter 10% ou 40% dos pedidos acima de R$ 150, e a mesma política custa quatro vezes mais no segundo caso. A média não distingue os dois cenários.
A estrutura da conta
Toda política de frete grátis com mínimo divide a base em três grupos, e cada um se comporta de um jeito:
Grupo 1 — quem já estava acima do mínimo. Não muda nada no comportamento. A empresa simplesmente assume um custo de frete que antes era do cliente. É subsídio puro, sem contrapartida, e costuma ser a maior linha da conta.
Grupo 2 — quem estava logo abaixo. Parte dessas pessoas completa o pedido para atingir o corte. Aqui existe receita incremental, mas ela entra com margem de produto, não com margem cheia: um acréscimo de R$ 35 no pedido, a 40% de margem bruta, gera R$ 14 de contribuição — contra um frete que custa bem mais que isso.
Grupo 3 — quem estava muito abaixo. Ignora a política. A distância até o mínimo é grande demais para justificar comprar algo que não se quer.
Já dá para ver o formato do problema: o grupo que gera receita incremental é o menor dos três, e o que mais custa é o que não reage a nada.
A conta com números
O exemplo abaixo usa uma operação de porte médio, com mil pedidos por mês. Os números são ilustrativos e servem para mostrar a mecânica — a distribuição real de cada operação é o que decide o resultado.
| Faixa de valor | Pedidos/mês | Ticket médio da faixa | Receita |
|---|---|---|---|
| Abaixo de R$ 100 | 400 | R$ 70 | R$ 28.000 |
| R$ 100 a R$ 149 | 350 | R$ 120 | R$ 42.000 |
| R$ 150 ou mais | 250 | R$ 210 | R$ 52.500 |
| Total | 1.000 | R$ 122,50 | R$ 122.500 |
Margem bruta de 40% e custo médio de frete de R$ 22 por pedido. A política escolhida é a do manual: mínimo de R$ 150, logo acima do ticket médio de R$ 122,50.
No grupo que já comprava acima de R$ 150, são 250 pedidos que passam a não pagar frete. Custo mensal: R$ 5.500. Nenhuma receita nova em troca.
No grupo entre R$ 100 e R$ 149, suponha que 30% completem o pedido — 105 pedidos que sobem de R$ 120 para cerca de R$ 155. A receita incremental é de R$ 3.675, o que a 40% dá R$ 1.470 de margem. O frete desses 105 pedidos custa R$ 2.310. O grupo que a política existia para estimular fecha negativo em R$ 840.
Custo líquido total: R$ 6.340 por mês. Para empatar, a política precisa trazer pedidos que não existiriam. Um pedido novo de R$ 155 contribui com R$ 62 de margem menos R$ 22 de frete, ou R$ 40 líquidos. São necessários 158 pedidos adicionais por mês — quase 16% de aumento de volume — só para o frete grátis se pagar.
O mesmo negócio com três valores de corte
Refazendo a conta com outros mínimos, sobre a mesma base, a sensibilidade fica evidente.
| Mínimo | Pedidos já acima | Subsídio mensal | Resultado do grupo que sobe | Custo líquido | Aumento de volume para empatar |
|---|---|---|---|---|---|
| R$ 99 | 600 | R$ 13.200 | − R$ 1.120 | R$ 14.320 | + 72% |
| R$ 150 | 250 | R$ 5.500 | − R$ 840 | R$ 6.340 | + 16% |
| R$ 249 | 50 | R$ 1.100 | + R$ 90 | R$ 1.010 | + 1,2% |
Três leituras saltam da tabela. A primeira: o mínimo baixo, que é o mais popular porque parece generoso e converte melhor na página de produto, exige um crescimento de volume que praticamente nenhuma operação entrega. A segunda: o mínimo alto é o único em que o grupo estimulado fecha positivo, porque o acréscimo exigido no pedido é grande o suficiente para cobrir o frete. A terceira, e a mais desconfortável: o custo da política é dominado pela coluna do subsídio, não pela do estímulo. O que decide se o frete grátis se paga não é quantas pessoas ele convence — é quantas ele já não precisava convencer.
Os três custos que o modelo simples esconde
A conta acima ainda é otimista, por três razões.
O custo de frete não é um número só. Entre uma entrega na mesma região do centro de distribuição e uma no outro extremo do país, a diferença costuma ser de duas a três vezes. Um mínimo nacional único subsidia proporcionalmente muito mais quem está longe — e como a demanda distante geralmente é a mais sensível a preço, a política tende a atrair exatamente o pedido mais caro de servir. Operações que medem margem por região costumam descobrir que o frete grátis é lucrativo em uma praça e destrói margem em outra, com o resultado agregado escondendo as duas coisas.
A devolução cobra duas vezes. Pedido inflado para bater o mínimo carrega itens comprados por obrigação, não por desejo, e esses itens voltam mais. Na devolução, a operação já pagou o frete de ida que subsidiou, paga a logística reversa e perde a receita que justificava tudo.
E existe o efeito sobre a frequência. Cliente que aprende a esperar para fechar um pedido de R$ 150 compra menos vezes por ano, com pedidos maiores. Se a receita anual por cliente ficar igual, o negócio trocou vários pontos de contato por um só — o que reduz oportunidade de recompra e aumenta a chance de o cliente resolver comparar preço no meio do caminho. É um efeito real e raramente medido, porque o relatório de ticket médio mostra melhora justamente quando isso acontece.
Onde o frete grátis realmente funciona
Nada disso significa que a política nunca compensa. Significa que ela compensa como investimento de aquisição ou de reativação, com prazo e público definidos, e não como regra permanente aplicada ao site inteiro.
Três usos em que a conta costuma fechar. Na primeira compra, porque o frete é a principal fricção de quem ainda não confia na loja, e o custo é comparado ao CAC de mídia paga — não à margem do pedido. Na reativação de cliente inativo, pela mesma razão. E em categoria de recompra previsível, em que o primeiro pedido subsidiado é pago pelos seguintes, desde que a taxa de recompra seja conhecida e não estimada por otimismo.
Fora disso, a alternativa que quase sempre rende mais pelo mesmo dinheiro é o frete com desconto progressivo em vez de gratuidade binária: uma tabela em que o valor do frete cai conforme o pedido cresce mantém o estímulo no grupo que reage e elimina o subsídio integral ao grupo que não reage. Custa menos, e a barreira psicológica de “faltam R$ 30” continua funcionando.
O que eu faria
Colocaria o mínimo no percentil 75 a 80 do valor dos pedidos, não perto da média. Na base do exemplo, isso significa algo próximo de R$ 200 — desconfortavelmente alto para quem está acostumado a olhar o ticket médio, e é exatamente esse desconforto que indica que o número está no lugar certo. Acima da média, o subsídio ao grupo inerte cai rápido; abaixo dela, ele domina a conta.
Antes de mudar qualquer coisa, faria duas medições. A primeira é o histograma de valor de pedido, não a média — sem saber quantos pedidos já estão acima de cada corte candidato, a decisão é chute. A segunda é um teste com grupo de controle, por região ou por coorte de clientes, medindo margem de contribuição por cliente em noventa dias, e não ticket médio. Ticket médio vai subir em qualquer cenário; é a métrica que a política manipula por construção, e por isso é a menos informativa de todas.